Biblioteca Nacional mostra o Brasil do século XIX

Data: 
12/12/2018 a 31/05/2019
Período e horários: 
segunda-feira, das 12h às 16h30
terça a sexta-feira, das 10h às 16h30
O MINC e a Biblioteca Nacional abriram no dia 11 de dezembro a exposição “1808 – 1818: A construção do reino do Brasil”, dando início às comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil.

A exposição reflete sobre a época joanina, um período que começa com a chegada da corte portuguesa em 1808 e logo em seguida, a abertura dos portos brasileiros às nações unidas e termina com a coroação do príncipe regente D. João. Deixando para trás uma Europa conflagrada, D. João passou a reinar na cidade do Rio de Janeiro, que se transformou na cabeça do Império Ultramarino. A instalação da corte aqui promoveu a quebra do chamado “pacto colonial”, abrindo os portos para as nações amigas.

Artistas, viajantes e naturalistas foram autorizados a conhecer e a registrar a paisagem tropical. Foram 10 anos que transformaram o Brasil, quando foram fundados o Banco do Brasil, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, a Biblioteca Real, atual Biblioteca Nacional, as academias Real dos Guardas Marinhas e Real Militar, e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios.

A exposição acontece em dois espaços.

Hall de entrada

No primeiro, uma instalação multimídia de Marcello Dantas no hall do segundo andar marca visualmente o momento histórico sob o ponto de vista do legado humano e natural do Brasil naquele momento. Ali são mostradas imagens de Wied Neuwied e Alexandre Rodrigues Ferreira, pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional, animadas com técnicas de computação gráfica, onde as obras ganham um novo sentido e vida. As imagens são impressas e projetadas em quatro painéis de fitas de 13 metros de altura, que saem do parapeito do quinto andar do prédio.

“Dividimos o espaço em quatro planos feitos de fitas que desenlaçam e revelam fragmentos. Em dois lados, a paisagem: uma referência de Wied Neuwied ao finado Rio Doce, que nos coube destruir, mas que nos deixou uma imagem gloriosa da natureza que ali ecoava. A outra imagem é o Rio Grande de Belmonte, mais conhecido como Rio Jequitinhonha. Em fitas de imagens, cabe à nossa imaginação juntar as partes desses rios que nos fertilizaram para chegar onde estamos”, explica Marcello Dantas.

Galeria Eliseu Visconti

Na galeria Eliseu Visconti, no primeiro andar do prédio, estão expostas obras originais, ampliações e projeções de imagens raras do Brasil de D. João VI, todas também do acervo da Biblioteca Nacional.

A primeira parte da exposição mostra aquilo que fora zelosamente proibido aos olhos estrangeiros. O Conde-Príncipe João Maurício de Nassau-Siegen, no período em que governou o Brasil-Holandês (1637-1644) foi responsável pela única janela aberta sobre o Brasil pelos artistas profissionais, naturalistas e cartógrafos que trouxe consigo. O Brasil holandês seria documentado e pintado por geógrafos e artistas.

O segundo módulo trata da construção de uma utopia. Em 10 anos, D. João teria a ambição de criar uma nova capital no Rio de Janeiro.

A disputa entre os artistas franceses, sobretudo Hyppolite Taunay e Jean Baptiste Debret, pelo cargo de pintor do Rei, é um dos highlights que pode ser vislumbrado na Varanda da Aclamação, erguida diante do Convento do Carmo para a aclamação de D. João como Rei do Reino Unido de Portugal, do Brasil e Algarves.

É o contraste deste mundo fechado, que D. João abriu e permitiu ao mundo descobrir, com a Europa em guerra, sendo passada a fogo, ferro e fome, que interessa salientar nesta parte da exposição. Nesse sentido, para acentuá-lo com a paisagem edênica, apesar da violência da escravatura, são expostas imagens revolucionárias francesas, de Napoleão, da penúria em Lisboa, e de seu incêndio.

O período abordado é considerado por muitos historiadores como aquele que prenuncia a independência do Brasil, ocorrida quatro anos depois, com a partida de D. João VI.

A História

Desembarque em Salvador

Em 27 de novembro de 1807, Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha Dona Maria I de Portugal, seu filho, o Príncipe Regente D. João, juntamente com o restante da família real, embarcavam no cais de Belém para a América portuguesa. Tinha início a diáspora da corte lusa com milhares de pessoas partindo da metrópole para a colônia, de Lisboa para o Rio de Janeiro e, com ela, ocorreria a gênese da construção do Reino do Brasil.

Diante da invasão francesa, o Novo Mundo tornara-se para esta dinastia europeia seu último recurso na conservação de seu trono: os Bragança partiam para reinar em sua nova capital do além-mar, seguindo e unindo sua fortuna ao Brasil.

Uma aventura na qual seriam acompanhados de mais de 10 mil cortesãos, além dos 60 mil livros, mapas e gravuras da Biblioteca Real: ao atravessarem o Atlântico, traziam a metrópole para a colônia e fundavam a primeira monarquia europeia do Hemisfério Sul.

Às quatro horas da tarde do dia 22 de janeiro de 1808, logo após os navios estarem fundeados, o Governador da capitania da Bahia, Conde da Ponte, foi a bordo da nau Príncipe Real. No dia seguinte, fizeram o mesmo os membros da Câmara. Mas o desembarque da real comitiva só ocorreria, com grande solenidade, quarenta e oito horas depois: às cinco em ponto da tarde do dia 24.

Desde o descobrimento de Cabral em abril de 1500, nada poderia ser comparado ao desembarque da Rainha D. Maria I e do Príncipe Regente D. João em Salvador. Dava-se ali o maior acontecimento político e cultural da história da América portuguesa.

Até o desembarque solene da comitiva real em Salvador,  a América portuguesa era em toda a sua extensão uma incomensurável plaga fechada aos estrangeiros. Formada pelo Estado do Grão-Pará e Rio Negro, administrado por um Governador-Geral em Belém, e pelo Estado do Brasil, por um vice-rei no Rio de Janeiro, esse interdito fez com que a gente, a terra, a fauna e a flora dos Brasis estivessem envoltas de mistérios.

Ao longo do século XVIII, naturalistas como o prussiano Alexander von Humboldt e o inglês Joseph Banks foram impedidos, sob pena de cárcere, de adentrar o continente vedado. Era todo um mundo à espera de ser descoberto e estudado a partir da abertura dos portos em 1808, de forma que grande parte da iconografia reunida nesta exposição foi produzida a posteriori, uma licença anacrônica necessária para revelar o Brasil que D. João abriu. A ausência quase absoluta de arte profana tornava a América portuguesa historicamente invisível a olhos não portugueses.

Chegada ao Rio de Janeiro

A chegada em 8 de março de 1808 à futura Capital do Reino Unido deu-se, como em Salvador, sem qualquer registro visual.  Não havia simplesmente artistas capazes de fazê-lo, uma ausência de pintores de história que só seria compensada com a chegada da chamada Missão Francesa oito anos depois.

Porém, ao contrário de Salvador, a cidade estava prevenida e o desembarque ocorreria no mesmo dia. Coube ao cronista Luiz Gonçalves dos Santos, mais conhecido como Padre Perereca fazer o retrato do advento.

Abertura dos portos

O decreto foi uma verdadeira carta de alforria do pacto colonial, primeira tentativa do laissez faire, laissez aller, laissez passer; apenas quatro dias após a chegada da Corte ao Brasil, a América portuguesa passava de uma das regiões mais fechadas do Mundo para o mais completo liberalismo. Com essa carta régia assinada no dia 28 de janeiro de 1808, a primeira assinada pelo Príncipe Regente, o Brasil deixava de fato de ser uma colônia portuguesa: era a sua primeira Independência.

Criação do Reino do Brasil

A elevação do Brasil à sede oficial do Reino Unido teria recebido um incentivo da França. No mesmo ano de sua criação, o Príncipe de Talleyrand, plenipotenciário francês no Congresso de Viena, declara: “Convém a Portugal e convém mesmo à Europa toda (...) o enlace entre nossas possessões europeias e americanas. (...), eu consideraria como uma fortuna que se estreitasse por todos os meios possíveis o nexo entre Portugal e o Brasil; devendo este país, para lisonjear os seus povos, para destruir a ideia de colônia, que tanto lhes desagrada, receber o título de Reino, e o vosso soberano ser Rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil.”

Coube ao francês Jean-Baptiste Debret desenhar o novo brasão que unia a dourada esfera armilar brasileira as quinas e castelos de Portugal e Algarves.    

Junto com ela, acabava o mercantilismo do "Exclusivo Metropolitano", e os produtos brasileiros não passariam nunca mais pelas alfândegas de Portugal: os portos do Brasil estavam abertos ao comércio com todas as nações amigas de Portugal, inclusive a única república do hemisfério, os Estados Unidos da América, que logo enviariam um plenipotenciário ao Rio de Janeiro.

Serviço

1808 – 1818: A criação do reino do Brasil

Curadoria: Julio Bandeira

Produção: Suzane Queiroz

Informações complementares: 
Entrada franca
Localização

Espaço Cultural Eliseu Visconti

Rua México s/n Rio de Janeiro, RJ 20031-144