Entrevista com o ilustrador Rui de Oliveira, cujos trabalhos serão exibidos na mostra em homenagem a Monteiro Lobato

quarta-feira, 17 de abril de 2019.
Entrevista
Monteiro Lobato, ilustração, desenho, artes plásticas, televisão
O trabalho de Rui de Oliveira é referência na ilustração de obras infantis e juvenis. Nascido no Rio de Janeiro e formado em artes gráficas, o artista estudou pintura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e ilustração no Instituto Superior Húngaro de Artes Industriais [atualmente, Moholy-Nagy University of Art and Design] e cinema de animação no Pannónia Film Studio, em Budapeste.

Detém quatro prêmios Jabuti de ilustração e também o prêmio de literatura infanto-juvenil, concedido pela da Academia Brasileira de Letras, por Cartas Lunares.

Sem dúvida, Rui de Oliveira é um dos grandes nomes da ilustração no Brasil. No início de sua trajetória profissional, em 1975, foi contratado pela TV Globo para realizar a programação visual do Sítio do Picapau Amarelo, obra de teledramaturgia baseada na obra de Monteiro Lobato. O projeto foi ao ar em 1977, com estrondoso sucesso. Os figurinos, imagens, desenhos e videografismos idealizados por Rui de Oliveira juntamente com a equipe da emissora marcaram uma época na televisão e ficaram gravados para sempre na memória de toda uma geração de telespectadores.

A exposição Monteiro Lobato: o homem, os livros na Biblioteca Nacional, aberta ao público a partir da quinta-feira, 18 de abril, traz desenhos originais e inéditos desse grande artista brasileiro.

Rui falou com exclusividade para o sítio eletrônico da Biblioteca Nacional. Confira!

Como foi a sua ligação com a obra de Monteiro Lobato na infância? As ilustrações que você via nas obras de Lobato de alguma maneira despertaram sua curiosidade para a criação artística, que você viria a trilhar profissionalmente mais tarde?

Tive realmente a sorte de ter vivido em um lar de leitores. Apesar das dificuldades econômicas, meu pai sempre comprava livros para os filhos. Todos nós gostávamos de ler, um costume que mantive ao longo de toda a minha vida, bem como meus irmãos. A possibilidade de juntar a leitura com o desenho me fascinava muito. Sempre gostei de escrever. Esse binômio – palavra e imagem – era o que inconscientemente me interessava naquela época, com destaque para o desenho: sempre gostei muito de desenhar. Meus dois irmãos também desenhavam. Com o passar do tempo, principalmente na transição da infância para adolescência, o ato de desenhar se tornou um modo de comunicar e expressar o que eu sentia. Eu era extremamente tímido, calado, muito solitário, e o desenho, de certo modo, me fez superar esta barreira. Além de despertar pra mim mesmo em um processo de autoconhecimento, o desenho reforçou também minha autoestima. Acho que desenhar é como escrever cartas para nós mesmos. Acredito também – e isto se repete até nossos dias – que a leitura é um fundamento e está intimamente associada ao desenho: não dá para ilustrar sem gostar de ler.

Dentre os ilustradores de Monteiro Lobato que eventualmente influenciaram a criação dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, há algum que você gostaria de destacar?

Muitos são os ilustradores e pintores que me influenciaram. Entre os ilustradores brasileiros, eu admirava muito o Seth, pseudônimo de Álvaro Marins. O seu monumental livro O Brasil pela imagem, todo ilustrado em bico de pena, sem dúvida foi o que me despertou quando criança para a arte da ilustração. Gostava muito também dos quadrinhos em aguadas do Andre Leblanc. Eu copiava a ele e ao ilustrador Jayme Cortez quando criança. E tive o grande prazer de conhecê-los pessoalmente. Eu sempre tive um grande interesse pelo cinema de animação. Portanto, em minha formação – quando criança e depois como adolescente –, diversos artistas alcançaram grande importância para mim. Como os cineastas de animação tchecos: Jiri Trnka, Bratislav Pojar e o polonês Jan Lenica.

Para um artista como você, qual é a dimensão de assinar criações que se tornaram ícones para toda uma geração?

Fico muito feliz por ter criado a memória feliz das pessoas. Acredito que todos nós temos um repertório, um acervo de imagens que nos acompanham eternamente. Quando ilustramos, precisamos ter essa consciência. A imagem tem a capacidade de se eternizar, se tornar um arquétipo de cada um de nossos leitores. Isto acontece quando o artista ao mesmo tempo desenha com o passado e com o futuro. Sinceramente, eu não acredito em imagem sem origem, sem símbolos, sem tradição. O que encanta uma criança ao ver uma ilustração num livro é a capacidade que essa imagem tem de despertar no pequeno leitor um passado, um tempo que ele não viveu, mas que passará a viver a partir daquela visão. As ilustrações de Beatrix Potter, por exemplo, se perpetuam por gerações pelo fato de terem se originado da natureza, da referência do real.  As ilustrações pueris, fofinhas e graciosas, ou mesmo aquelas que procuram imitar desenhos de criança, jamais irão compor o panteão afetivo de uma criança.

Os desenhos ligados à obra de Monteiro Lobato que você vai expor na Biblioteca Nacional já foram exibidos publicamente em outra oportunidade, ou esses originais são inéditos?

Grande parte do acervo está sendo mostrada pela primeira vez. A exposição apresenta principalmente o processo de criação dos personagens.

Você acredita que os atuais recursos tecnológicos de manipulação e construção de imagens digitais podem de alguma maneira apoiar o ilustrador na criação de novas abordagens para personagens clássicos de Lobato?

Lobato não precisa de atualizações ou releituras. O fato de os ilustradores usarem recursos digitais, colagens, e todos os recursos e estilos rotulados como ‘modernos’ não significa que essas imagens contenham fundamentos contemporâneos. O que vemos frequentemente é um verdadeiro kitsch feito por computadores.