Ulla Gabrielsson e os desafios para traduzir a obra Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista, para o sueco

quinta-feira, 6 de junho de 2019.
Perfil
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A tradutora e poeta sueca Ulla Gabrielsson é um das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”. Por meio da chamada pública, editoras estrangeiras são convidadas a apresentar projetos de tradução de autores brasileiros para outros idiomas, promovendo a divulgação e difusão da cultura nacional em diversas partes do mundo.

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A tradutora e poeta sueca Ulla M. Gabrielsson é um das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”.
A tradutora e poeta sueca Ulla M. Gabrielsson é um das tradutoras contempladas pelo edital “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, edição 2018-2020”.

Ulla está envolvida na tradução da obra Roça Barroca, que por sua vez é o produto de uma tradução realizada por Josely Vianna Baptista do guarani para o português. Envolvida em uma empreitada que se poderia chamar minimamente de ‘desafiadora’, Ulla Gabrielsson fala ao portal da Biblioteca Nacional sobre o trabalho realizado até aqui, sua experiência de campo e todo o aprendizado conquistado até agora nessa empreitada.

Como surgiu a ideia de traduzir a obra Roça Barroca em questão?

Surgiu por um acaso, que se transformou em sincronicidade. Descobri a obra artística de Francisco Faria e a poesia de Josely Vianna Baptista em 2009-2010 quando estava morando no Brasil entre Rio e Florianópolis.

Abrindo o Jornal do Brasil, em um dia de primavera no Rio de Janeiro, em setembro de 2009, me deparei com os desenhos de Francisco Faria.  Ele estava expondo sua obra no Largo de Carioca. Os desenhos tinham um ar enigmático que tinham correspondência com o meu imaginário de paisagens do Brasil. Logo em seguida, descobri a poesia de Josely, já que os dois colaboravam artisticamente.

O acaso se transformou em uma “coincidência significativa”, o que para mim é sinal de verdadeira sincronicidade (conceito desenvolvido por Carl Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado).

Em 2010 li os poemas de Josely na Internet, com um sentimento de reverência e afinidade. Na época, porém, não consegui localizá-la, embora tenha tentado.

Quatro anos depois, em 2014, Birgitta Wallin, editora-chefe de Karavan, uma revista literária sueca, me procurou pedindo um ensaio sobre poesia feminina do Brasil. Eu queria escrever sobre a obra de Josely. Eu já estava morando em Cambridge, na Inglaterra, quando finalmente localizei a Josely. Descobri que ela estava morando em Campeche, Florianópolis, a menos de um quilômetro da minha antiga casa. Fomos vizinhas durante um ano e meio sem saber!

Minha entrevista com a Josely girava em torno do seu livro Roça Barroca, que tinha sido  publicado em 2011. Desde então estamos procurando formas de colaborar. E finalmente, em 2018, conseguimos elaborar um projeto que redundou em uma bolsa de tradução da Fundação Biblioteca Nacional.

O projeto partiu de uma iniciativa ou interesse pessoal seu, ou da editora?

Partiu de uma afinidade artística: somos ambas poetas e tradutoras, Josely e eu.

A primeira tradução da poesia de Josely que fiz foi Dois rios, do seu livro Ar (1991). A primeira linha chove forte tem quatro sílabas. Virou slagregn faller em sueco. Slagregn significa uma chuva forte, que bate.

Um exemplo de uma tradução, onde o som da chuva caindo foi mantido (de alguma forma).

A forma nebulosa da imagem gráfica dos poemas me encantou, pois inspirava uma leitura pausada e meditativa [vide ilustração associada a esta publicação].

O mesmo encanto surgiu gentilmente quando li pela primeira vez Poema Sujo, de Ferreira Gullar, em 1981. Foi um sentimento imediato. Mas demorei 20 anos para traduzir Poema Sujo, que foi lançado em sueco em 2004 pela Tranan.

A motivação e a necessidade de traduzir partiu do imaginário das paisagens do Brasil, tão presentes nos cantos sagrados indígena Mbyá-Guarani, na poesia de Josely e nas imagens de Francisco Faria.

Tentar traduzir Roça Barroca partiu da minha vontade de compartilhar (com os leitores na Suécia) um outro imaginário da natureza e da Terra, que se tornou urgente nas circunstâncias de hoje. Vivemos numa época assustadora de desmatamento e extinção das espécies.

O livro Roça Barroca é ele mesmo produto de tradução de Josely Vianna Baptista de um texto original da tribo Mbyá-Guarani para o português. O seu trabalho de alguma maneira envolve explorações ou pesquisas diretamente no original guarani?

Traduzir uma tradução de uma língua que desconhecemos significa um desafio. Felizmente o livro inclui comentários detalhado sobre os termos em guarani escritos por Josely durante sua pesquisa.

Posso conferir cada termo e as dúvidas que existem sobre sua tradução. Além disto, estou aprendendo palavras de uma língua desconhecida, que os leitores suecos também vão conhecer, já que este é um livro bilingue, em sueco-mbyá-guarani.

Mbyá-guarani, língua falada por 6000 pessoas no Brasil, foi reconhecida como bem imaterial pelo Iphan/MinC e como patrimonio nacional em 2011.

Traduzir uma tradução provavelmente seria proibido, se tivéssemos um código civil de tradução. Porém, nós temos a licença poética. Decidi seguir a filosofia estoica de “pessimista feliz”. Se consigo passar uma ideia do conteúdo dos cantos (que nunca foram publicados em sueco), o projeto já é um imenso sucesso.

Há algum aspecto que você gostaria de mencionar em torno da obra, dessa tradução particularmente, ou desafios em relação à linguagem, estilo, construção das frases ou tipo de narrativa?

Eu leio com atenção os comentários sobre os termos essenciais em guarani, por exemplo. Estou pesquisando a origem da língua guarani e ouvindo os cantos.

Em guarani Ñe’êy significa palavra-alma original. Para mim o livro celebra o conceito de-palavra-alma dos Mbyá-Guarani.

Algo que cabe mencionar é a riqueza do livro Roça Barroca. Trata-se de uma obra híbrida que contém três textos essenciais de Augusto Roa Bastos, Francisco Faria e Josely Vianna Baptista, além da tradução dos Três cantos sagrados do Mbyá-Guarani de Guairá e os poemas de Josely em Moradas Nômades.

No seu diário de tradução, você menciona o desafio de traduzir o nome de um pássaro do inglês para o português: “imaginem traduzir para português uma canção com o robin no refrão? Sim, claro, tem variantes do nome: pisco, pintarroxo, papo-ruivo ou papo-roxo, mas nada soa como robin. Qualquer tradução perde o som original”. Existe algum desafio adicional quando se traduz poesia, em que aspectos como rima, métrica e sonoridade das palavras têm maior relevância?

Sim, em poesia o ritmo e métrica é essencial. Como não é possível traduzir rima, é preciso optar por criar novas rimas ou excluir as rimas em nome do significado lexical. Como no exemplo acima do robin ou pintarroxo, os pássaros têm tantos nomes. Um exemplo dos dilemas é a tradução do verso sobre a coruja, em guarani urukure’a:

Em guarani: Pytû ja, Urukure’a* i.
Em português: O nume do escuro é o murucutu**.
Em sueco: Mörkret är ugglans tid, urucuaria***.

*Em guarani urukure’a (Speotyto cunicularia grallaria ou Athene cunicularia grallaria)
**Em português murucutu ((Pulsatriz koeniswaldiana)
***Em sueco prärieuggla (Athene cunicularia grallaria)

Optei pelo nome genérico em sueco: uggla, seguido pelo nome em guarani, para conseguir um pouco da tonalidade u-u-u do original.

Escolhas têm que ser feitas, perdendo e ganhando sentido e som. Ferreira Gullar me disse uma vez que as espécies dos pássaros que voam nas paginas no Poema Sujo não seriam tão importantes. Gullar até fala do pássaro-pássaro, uma espécie de essência de ave. A ave-em-si?

21 de fevereiro 2019: foto de Josely, Ulla e Francisco.
Desenho de Francisco Faria de sua exibição em 2009, no Largo de Carioca, Rio de Janeiro.
Desenho de Francisco Faria, 2018.