Daniele Petruccioli e a tradução de Amilcar Bettega Barbosa para o italiano

terça-feira, 25 de abril de 2017.
Perfil
literatura, tradução, literatura brasileira, Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil
Daniele Petruccioli nasceu e vive em Roma, Itália. É tradutor, scout e editor freelance, trabalhando com romances italianos, franceses, ingleses e da área lusófona, com destaque para a experimentação linguística e para a literatura pós-colonial.

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O tradutor italiano Daniele Petruccioli.
O tradutor italiano Daniele Petruccioli.

O tradutor oferece regularmente oficinas e palestras sobre tradução e ensina tradução do português nas universidades Tor Vergata e Unint. Traduziu, entre outros, Cristovão Tezza, Heloneida Studart, Luandino Vieira, Mia Couto e Dulce Maria Cardoso. Em 2010, ganhou o prêmio Luciano Bianciardi pela tradução do romance em lipogramas Ella Minnow Pea, de Mark Dunn (Lettere, Voland 2008). Em 2014, publicou o livro Falsi d’autore. Guida pratica per orientarsi nel mondo dei libri tradotti [em tradução livre, Falsos de autor. Guia prático para se orientar no mundo dos livros traduzidos] pela editora Quodlibet, Macerata. É membro fundador do STradE (Sindacato Traduttori Editoriali).

Daniele esteve recentemente no Brasil como bolsista do Edital de Residência de Tradutores Estrangeiros da Biblioteca Nacional, ele conversa conosco sobre seu atual projeto, a tradução do volume de contos Deixe o quarto como está, de Amílcar Bettega Barbosa.

Você poderia falar um pouco sobre o seu encontro com a língua portuguesa?

O meu primeiro encontro com a língua portuguesa aconteceu em São Paulo no final dos anos oitenta, graças ao professor Andrea Lombardi – que hoje ensina literatura italiana na UFRJ –, que eu conhecia antes mesmo de sua chegada ao Brasil. Foi ele quem primeiro me apresentou a essa língua. Depois me formei em tradução com uma tese de comparação entre as traduções italianas de Macunaíma e Grande Sertão: Veredas. A minha carreira de tradutor – que não se limita aos autores de língua portuguesa – começou com autores lusófonos de Angola e do Brasil, e hoje o meu trabalho tem muito a ver com a apresentação de novos autores brasileiros às editoras italianas com as quais colaboro.

Qual é a importância da viagem para a tradução da obra Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega Barbosa?

A importância maior para a minha tradução de Deixe o quarto diz respeito à topografia – real e metafórica – dos locais onde os contos do livro nasceram. A escrita do Bettega tem uma força imensa na evocação de lugares e situações, cuja mágica espero entender melhor visitando não só os locais onde parte dos contos se desenvolvem, mas também os que foram importantes pela formação do autor.

Qual aspecto do livro tem se revelado mais instigante no trabalho de tradução?

O melhor talvez seja a diversidade de linguagens de que Bettega se serve para pintar as mais diversas situações. Alguns contos têm uma violência sintática e lexical, enquanto outros ficam como que suspensos numa nuvem de linguagem delicada, mas nem por isso menos assustadora, como se o autor se servisse do excesso, não menos do que da subtração, para desenvolver as suas atmosferas sempre inquietantes.

Você poderia citar algum autor italiano que o público brasileiro precisa conhecer?

Duas escritoras muito interessantes são Nadia Terranova, autora siciliana cujo último romance sobre a história italiana dos anos Setenta, Gli anni al contrario, foi muito apreciado e vai ser traduzido para o francês; e Igiaba Scego, autora italiana de origem somali muito sensível às temáticas pós-coloniais e de identidade. Seu último romance, Adua trata de uma mulher em busca de sua identidade entre a África e a Itália, obra que será publicada na Inglaterra.

O tradutor italiano Daniele Petruccioli.
O tradutor italiano Daniele Petruccioli.