Ana Maria Gonçalves e Milton Guran foram os convidados de Diálogos desta semana

sábado, 22 de julho de 2017.
Evento
literatura, negritude, literatura brasileira
O Programa Diálogos realizado nesta quinta-feira, 20 de julho, teve como tema o tema Saga da negritude na literatura brasileira e contou com as participações da escritora Ana Maria Gonçalves e do antropólogo Milton Guran, com mediação da jornalista Helena Celestino, no Auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional.

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Da esquerda para a direita, Ana Maria Gonçalves, Helena Celestino e Milton Guran no Programa Diálogos da Biblioteca Nacional em 20 de julho.
Da esquerda para a direita, Ana Maria Gonçalves, Helena Celestino e Milton Guran no Programa Diálogos da Biblioteca Nacional em 20 de julho.

Ana Maria Gonçalves contou que começou a escrever na época em que os blogs começaram a se popularizar como meio de expressão individual. Após publicar seu primeiro romance, Ao lado e à margem do que sentes por mim, seu amigo Luiz Gravatá deu um exemplar da obra a Millôr Fernandes, que gostou e ligou diretamente para a autora. Os dois conversaram por longo tempo e Ana Maria confessou que não acreditou que estivesse realmente falando com o Millôr: “provavelmente se tratava de algum amigo passando trote, mas eu dei corda”. Ana Maria e Millôr Fernandes voltaram a se falar depois, quando a autora preparava seu segundo romance, Um defeito de cor, que conta a trajetória de uma menina nascida no Reino do Daomé, capturada como escrava aos 8 anos, até a sua volta à terra natal como mulher livre.

Na época, entregou extenso manuscrito de mais de mil páginas, que Millôr Fernandes leu em uma semana: “ele leu e anotou tudo, fez considerações sobre fatos históricos, enfim, deu várias dicas”. Ao fim, segundo Ana Maria, Millôr vaticinou: “você tem uma história, mais ainda não tem um livro”.

Após dois anos escrevendo Um defeito de cor, a autora iniciou então um processo de reescrita total seguindo a máxima de Millôr: “quando você não conseguir mudar mais nada, significa que o livro está pronto”. Essa etapa consumiria mais dois anos de trabalho até que ela pudesse considera-la completa.

Hoje na décima edição, Um defeito de cor foi lançado originalmente pela Editora Record e conquistou, pouco a pouco, uma legião de leitores. Tornou-se um livro-símbolo do movimento negro feminista, mas a autora rejeita rótulos: ela quer que a obra seja lida e apreciada por um público cada vez mais amplo e heterogêneo sobre o sofrimento de uma mulher que é negra, porém que pode ser percebida como personagem universal: “as histórias de racismo devem ser entendidas como histórias do povo brasileiro, e não apenas do povo negro”, disse Ana Maria.

Ana Maria Gonçalves conta que o inusitado apoio de Millôr Fernandes no início de sua carreira como escritora foi fundamental para que conseguisse chamar a atenção para o seu trabalho e lançar a obra por uma grande editora, como a Record, mas questionou: “quantas ótimas e excelentes escritoras negras têm obras empilhadas nas editoras aguardando serem apreciadas por potenciais editores? É uma literatura que não encontra espaço e você ainda depende de alguém que ‘banque’ a indicação”.

De acordo com a autora, o objetivo da obra não é o de esgotar o assunto: “Um Defeito de cor é o livro que eu gostaria de ter lido e que não achei pronto, porque só há pouco tempo foi que nós, negros brasileiros, tivemos a consciência de assumir a nossa identidade, de recuperar e conhecer o nosso passado histórico. Para mim, escrever a obra foi um exercício de busca dessa identidade. Quem são esses antepassados? De onde eles vieram? Conhecer os meus antepassados é importante para mim. A herança negra e indígena é básica na formação do Brasil, em torno da qual outras identidades foram sendo incorporadas e misturadas”.

Embora Ana Maria veja um cenário muito desafiador, ela disse que percebe um grande e importante movimento de jovens mulheres negras que buscam um canal de expressão cultural cada vez mais amplo, seja na literatura, seja no cinema.

Em seguida, foi a vez de Milton Guran falar sobre o desafio de transformar o Cais do Valongo em Patrimônio Histórico da Humanidade, título da Unesco que foi conquistado recentemente, no último dia 9 de julho.

Localizado no Centro do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo foi o maior porto de escravos do mundo, em todos os tempos, onde os negros vindos da África como escravos eram desembarcados e vendidos como mercadoria. Apesar da grande relevância histórica da região, a escavação que ‘desenterrou’ o Cais do Valongo só veio a ocorrer por ocasião das obras na região do Porto do Rio de Janeiro.

Segundo Milton Guran, “todo mundo sabia que o Cais do Valongo estava ali naquela região, havia evidência documental suficiente, mas a escavação para sua recuperação nunca fora feita. O segundo império cobriu o Primeiro Império. Depois veio a República e cobriu o Segundo Império. Depois de tanto tempo, a gente ia deixar isso tudo enterrado.”

Juntamente com a revelação desse importante sítio arqueológico, veio a candidatura a Patrimônio Histórico da Humanidade, processo que durou anos: “o reconhecimento  pelo Estado brasileiro desse passado é um marco importantíssimo para o movimento negro brasileiro. É um passo importante no sentido de reconhecer, de maneira oficial, todo o sofrimento que foi causado ao negro”.

O antropólogo passou, em seguida, ao tema da reparação, que deve ser entendido de uma maneira mais ampla. Segundo Milton, quando se fala em reparação, o tema da indenização financeira costuma à tona, mas questionou sua eficácia: além de ser uma discussão muito  complicada, porque envolve valores, também suscita uma série de questionamentos: quem vai pagar e quanto, e quem terá o direto de receber, e quanto? Para Milton Guran, a escavação do Cais do Valongo e seu reconhecimento como Patrimônio Histórico são importantes passos no sentido dessa reparação. Quanto mais iniciativas surgirem nesse sentido, com o objetivo de resgatar a identidade e as raízes históricas do negro e do índio no Brasil, reconhecendo seu papel central na formação do país, maior será seu empoderamento. “São diversas ações que vão ocorrendo e isso vai chamando mais atenção para o tema”, declarou Milton.

Nesse contexto, a literatura tem grande importância. Para Milton, “a literatura é vida, agrega novas vozes e visões. Criar essa reparação a partir do pluralismo de versões é fundamental”.