Os escritores Ruy Castro e Heloisa Seixas foram os entrevistados de Diálogos desta quinta-feira

terça-feira, 15 de agosto de 2017.
Evento
Rio de Janeiro, literatura, literatura brasileira
Heloisa Celestino, apresentadora do Programa Diálogos na Biblioteca Nacional, recebeu na última quinta-feira, 10 de agosto, o casal de escritores Ruy Castro e Heloisa Seixas, no Auditório Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, para um delicioso bate-papo com mais de duas horas de duração, em que os autores percorreram diversos temas, sempre em torno do tema proposto para o encontro: Escrever, um prazer a dois – juntos ou separados.

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10 de agosto de 2017 - Da esquerda para a direita, Ruy Castro, Heloisa Celestino e Heloisa Seixas.
10 de agosto de 2017 - Da esquerda para a direita, Ruy Castro, Heloisa Celestino e Heloisa Seixas.

Os dois iniciaram ‘contando’ de memória as obras de autoria de cada um: rapidamente, Ruy Castro contou mais de 40, incluindo biografias, livros de crônicas e coletâneas, e Heloisa, em torno de 20. Falaram, em seguida, sobre a curiosa biblioteca de Ruy Castro: “a biblioteca dele é arrumadíssima, tem dez estantes temáticas, classificadas com muito cuidado, por ordem de sobrenome do autor”, entregou Heloisa Seixas. Ruy Castro destacou o papel dos livros sobre o Rio de Janeiro: são em torno de 4 ou 5 mil livros só sobre o Rio, incluindo obras sobre desenho, pintura, sociologia, história da imigração, capoeira... “Eu tenho quase uma estante inteira sobre o Carnaval e a história do futebol carioca; e olha que eu tenho mais uma estante auxiliar inteira só sobre a ficção do Rio. Tem todos os autores em ordem cronológica. Tem uma parede inteira de teatro, poesia, dicionários; desde dicionário de baianês até dicionário de Filosofia”.

O bate-papo foi recheado de curiosas histórias sobre a convivências entre os dois autores na criação de diversas obras ao longo dos anos. Em O oitavo selo, Heloisa Seixas conta as ‘peripécias’, as quase-sete mortes do marido Ruy Castro: “ele se ocupa de quase morrer e fica escrevendo sobre a vida, me apavorando, né? Com esse negócio de escrever, eu funciono muito assim: eu coloco os meus terrores no papel e, assim , ‘quebro o encanto’, me livro deles”. Na obra, Heloisa conta sobre o susto que levaram ao tomar conhecimento de um câncer na base da língua de Ruy Castro, precisamente na época em que ele escrevia a biografia de Carmen Miranda. Ao saber do diagnóstico do médico, enquanto Heloisa ainda absorvia o impacto da difícil notícia, as primeiras palavras do autor foram: “vai atrasar o livro”. Heloisa discorreu também sobre o bom-humor com que Ruy Castro encara esse tipo de situação de dificuldade: “no hospital, é piada o tempo todo, e trabalho o tempo todo”, lembrando que o autor se cercava de papeis na cama de hospital, fazendo revisão nos textos, “a ponto dos enfermeiros ficarem comentando”.

Heloisa contou que suas obras acontecem meio sem planejamento, ela costuma escrever durante momentos de dificuldade pelos quais vem passando ao longo dos últimos anos. Quando escreveu Lugar escuro, contou que estava convivendo com a mãe que sofria de Alzheimer, e a obra exprime as dificuldades de estar próximo de uma pessoa “que está ali em corpo, mas que se transformou em outra pessoa”. Heloisa disse que, ao relatar essas dificuldades para outras pessoas com quem convivia, recebeu várias sugestões para que escrevesse sobre elas: “no livro, eu coloquei meus sentimentos mais sinceros e rasteiros, a raiva com aquela situação; na obra, eu não fui a filha boazinha que cuidou da mãe, eu escrevi aquilo que sentia de fato”. Heloisa contou que depois de publicar a obra, quando participava de palestras, conheceu diversas pessoas que vinham dizer como o seu relato havia ajudado a aliviar a culpa de um período tão difícil: “a obra exprimia sentimentos que as pessoas não tinham coragem de admitir que tinham, nem para si mesmas”.

Falando sobre o Rio de Janeiro, Heloisa Celestino perguntou sobre o protagonismo da cidade na obra de Ruy Castro. O autor respondeu que tem grande admiração pela história da cidade: “tudo que é ótimo ou péssimo no Brasil começa no Rio. Isso sempre foi assim”. Ruy Castro lembrou então as diferentes percepções dos cariocas sobre a glória e declínio da cidade: “se você estuda a história do Rio, se você estuda os autores, vai ver que o passado sempre é considerado bom; em cada década, os anos dourados foram 10 anos antes”.

No final, ‘provocado’ por uma pergunta, Ruy Castro deu sua opinião sobre aquilo que chamou de ‘escalada da intolerância’ no tema das biografias, assunto que esteve em destaque na mídia recentemente, quando o STF (Superior Tribunal Federal) deliberou sobre o assunto, liberando a criação das biografias sem autorização prévia do biografado ou de suas famílias.

Condenou a posição do grupo auto-intitulado ‘Procure Saber’, incluindo os autores Chico Buarque e Caetano Veloso, que se posicionou contra a liberação das biografias não-autorizadas. Declarou-se profundamente decepcionado particularmente com a posição de Chico Buarque na época: “foi censurado a vida inteira e entrou nessa”. O próprio Ruy Castro teve problemas com biografias, por exemplo, com Estrela Solitária, que conta a história da vida de Garrincha.

“Quando a questão foi parar no STF, a Ministra Carmen Lúcia deu um 'cala a boca já morreu' e restabeleceu a liberdade de expressão nessa questão que era um escândalo”, finalizou Ruy Castro.